Textos

  • Data: 2/04/2010
  • Título: Infância: um exemplo de vida plena
  • Autor(a): Erica Brandt, psicóloga e terapeuta
  • "Trouxeram-lhe também criancinhas, para que ele as tocasse. Vendo isto, os discípulos as repreendiam. Jesus, porém, chamou-as e disse: Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará." (Lucas 18,15-17)

    As leituras sagradas revelam ensinamentos que indicam o caminho da plenitude, da realização interior, do desenvolvimento da cultura de paz. Para isso é significativo ampliarmos a capacidade da percepção, ela nos possibilita o acesso ao que está escrito além das palavras, além das imagens que estão presentes em textos sagrados, na arte, na natureza, portanto com humildade convido à reflexão desse trecho de Lucas como uma orientação que nos fala do caminho de cura do homem contemporâneo, este homem que não encontra mais tranqüilidade, tem seu corpo se deteriorando em doenças, uma mente onde proliferam pensamentos de inveja, ciúmes, violências... Onde as noites e dias se tornaram pesadelos.

    Esse ser humano que se esqueceu de sua humanidade, da conexão com seu estado de consciência de criança. Criança no sentido de pureza, de generosidade, de espontaneidade, de cooperação, de confiança, da capacidade de abraçar nas alegrias e nas dores sem julgamentos, de ouvir o corpo e naturalmente expressar o que sente e o que precisa para estar bem, capacidade de orar confiando no Mistério. Essas “criancinhas” que Jesus nos convida a resgatar, a descobrir dentro de nosso coração, para vivermos no Reino de Deus, o reino da paz e da harmonia, é a inspiração deste texto.

    É importante nos lembrarmos que nascemos nus com uma riqueza interior a ser acessada. Percorremos a vida acumulando bens materiais, títulos, funções pouco valorizando o que trouxemos ao nascer. Mantemos nossa mente ocupada com as ilusões das glórias passageiras e ao morrermos nesta dimensão para renascermos no plano divino, tudo pelo qual tanto nos desgastamos permanece na terra. O que segue conosco é a bagagem com a qual chegamos, a nossa riqueza interna.

    O homem contemporâneo vive a crise da fragmentação em seu mundo interior. Os conflitos entre sua fala, seus sentimentos e suas atitudes são gritantes. Por trás de toda a incongruência se revela uma alma em sofrimento pela ausência de conexão com o espírito. Como criamos esse grito silencioso tão profundamente expresso na obra O Grito, pintura do norueguês Edvard Munch, datada de 1893, pintura que representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial?

    A dor da alma resulta da negação de nossa “criança interior”, da não escuta de nossos sentimentos, da desconsideração de nossas sensações desconfortáveis, do fortalecimento de nossas exigências em sermos triunfadores de acordo com uma sociedade consumista que nos conduz a uma luta incessante contra o tempo para termos tudo o que dizem que uma pessoa bem sucedida deve possuir.

    É impressionante o quanto podemos despertar em nossa consciência normótica ao observarmos as crianças. A chama da Vida presente em seus olhos, em seus sorrisos, em sua curiosidade, assim como em sua tristeza pelas perdas e raiva perante injustiças revelam que não somos indiferentes e nem anestesiados perante as quatro estações da vida presentes em todas as etapas da evolução do ser.

    Nas crianças encontramos o que nós adultos perdemos, a conexão com o mundo através das sensações confortáveis e desconfortáveis que vivenciamos diante de cada experiência. As emoções vivenciadas em cada situação geram sentimentos que dão o valor e sentido às nossas relações com nosso eu interior, com o outro e com o universo.

    Valorizar somente a função psíquica do pensamento gerou uma humanidade evoluída científica e tecnologicamente mas involuída quanto a sentimentos, quanto à capacidade de ser “humana”. Todo indivíduo pode permanecer aprisionado pelas contradições e pela Sombra que ronda a humanidade ou ser a plena expressão de Luz.

    Possibilitar a plena expressão da Luz requer uma atenção mais ampla. O caminho não é unicamente pela função pensamento, pela análise, pelos rótulos que continuam nos fragmentando, mas pelo acesso à nossa capacidade de acolher, de aceitar, de amar apesar de tudo, abrindo as mãos e nos unindo para juntos encontrarmos novas soluções para os velhos e novos desafios, sem culpas, sem manipulações, sem medos. Desenvolvendo harmoniosamente os dois hemisférios cerebrais: a síntese e a razão e confiando na inspiração do Poder Maior que está disponível para todos.

    É uma reeducação, uma expansão da consciência que pode ser alcançada por uma abordagem que considere o eixo evolutivo, no sentido do desenvolvimento da individuação em conexão com o sagrado e o experiencial, focado na experiência de vida e relações interpessoais. Um programa evolutivo que possibilite o desenvolvimento da atenção às sensações; a valorização das emoções; a organização do pensamento e a abertura às intuições.

    Esta é uma proposta como caminho para desenvolvimento do ser integral, pois independente da idade cronológica, todo indivíduo pode despertar para a Vida ao lhe ser facilitada a possibilidade em descobrir que não é somente um cérebro pensante ou um trabalhador a serviço dos seres pensantes, mas um corpo que é sagrado por ser a morada do Sopro e pleno de potenciais a serviço Dele.

    Um processo no qual cada pessoa vivencie o olhar para si e também com atividades que favoreçam o olhar e interagir com o outro. Não é possível sairmos de uma sociedade individualista para uma cooperativa se não forem fornecidas condições para que essas capacidades sejam reconhecidas, desenvolvidas e integradas.