Textos

  • Data: 2/04/2010
  • Título: O Cacto e a Bromélia
  • Autor(a): Erica Brandt, psicóloga e terapeuta
  • Hoje, viajando para encontrar-me com minhas netas, observava a chuva enquanto dirigia e ouvia música. Essa chuva que para cada pessoa é percebida de forma distinta, para mim hoje é um doce acalento. Algumas pessoas dizem que a chuva é como lágrimas do céu, colocando-nos em contato com a tristeza não expressa; para outros a chuva é a celebração do encontro do Céu e da Terra, a alegria decorrente da fecundação do solo, momento em que as gotículas de água derramadas fertilizam a terra. No fundo, cada resposta fala do momento pessoal na existência de cada um.

    Nesse trajeto veio-me a imagem do jardim com cactos e bromélias, tema de um encontro entre amigos saboreando um delicioso café de fim de tarde. Agradeço ao universo pela compreensão que me foi oferecida e que gostaria de compartilhar com você: o cacto, mesmo atravessando longos períodos sem chuva, permanece verde e vigoroso. Embora seja adaptado à vida em áreas secas, pode ser encontrado em diversos ambientes. Ele contém em si a água necessária para satisfazer à sede dos camelos nas áreas desérticas.

    Para mim, o ser humano vivencia em um momento de sua vida a simbologia do camelo e a grande travessia do deserto interior. Este é um caminho solitário que conduz a um sentido maior de nossa existência. Diante da vida repleta de responsabilidades que temos, permitir-se seguir em direção ao nosso deserto interior é libertador. Esse espaço para o qual não levamos as tantas cargas que agitam nossa mente, levamos o necessário para poder caminhar tranquilamente, passo a passo na contemplação de quem somos.

    Quanto ao cacto podemos inferir ser a representação do eu interior que, de tempos em tempos, floresce mantendo os espinhos para se proteger dos possíveis predadores. Há um tempo em que nós, não conscientes de nossos predadores internos, evitamos contatos com outras pessoas, receosos de sofrimentos. Não percebemos que sofremos muito mais pelos espinhos que desenvolvemos com a ilusão de nos estarmos protegendo. Na realidade fortalecemos nossa solidão e nada aprendemos sobre a riqueza da solicitude.

    O interessante é que me veio às mãos um material sobre florais onde pude satisfazer minha curiosidade sobre estas plantas e o nosso processo de expansão de consciência. O texto abordava sobre o poder do cacto e de sua importância nas habilidades que precisamos para nos relacionar com as pessoas. É a capacidade de criar e respeitar limites sadios entre nós mesmos e os outros.

    Estes limites são linhas invisíveis que marcamos em torno de nós mesmos e informam aos outros sobre como desejamos ser tratados.

    Nossas relações estão cheias de mensagens faladas e implícitas que desenvolvem e mantém amarras. Se não estamos satisfeitos em nossas relações, devemos assumir a responsabilidade de falar sobre nossa insatisfação correndo os riscos que fazem parte da decisão em sermos verdadeiros ao nos comunicarmos com os outros.

    Tornou-se claro para mim como cada ser humano vive seu período de cacto no meio de uma floresta de possibilidades. Pude perceber os vários momentos de cacto que vivi buscando a seiva da vida no mundo externo, não conseguindo acessar a verdadeira fonte em meu coração.

    Ao contemplarmos um cacto, podemos ampliar nossa percepção ao refletirmos sobre como interagirmos com os outros sem nos enredarmos em suas percepções sobre quem somos; como damos aos outros a informação necessária para que nos respeitem e de que forma removemos as paredes que nos isolam do convício sadio com outras pessoas.

    Quando descobrimos que no centro de nosso Ser está a água que sacia a sede de nossa alma, os cactos que são espinhosos por fora e suculentos por dentro, nos ensinam que a beleza maior reside nas profundezas de nosso íntimo. Percebo que ao integrarmos essa compreensão nos abrimos à possibilidade de deixarmos de ser cactos para nos tornarmos bromélias.

    A bromélia, como muitos definem, é - um abacaxi bem colorido - que precisa da floresta para viver, correndo o risco de desaparecer com o desmatamento da Mata Atlântica. Realmente o ser humano que ‘desperta’ não consegue mais viver no deserto e precisa do Planeta para se manter vivo!

    No momento do recolhimento, pois assim é o inverno, é quando as bromélias desabrocham. Suas pétalas se estruturam como se fossem a parte espinhenta do abacaxi, em lâminas que se sobrepõem. São lindas as suas flores e seu aspecto selvagem, com cores como azul, vermelho, roxo, amarelo, alaranjado, quem sabe nos lembrando de nosso colorido e de nosso poder interior, único, que necessita ser expresso e acolhido.

    Sobreviventes a ambientes de pouca luz e muito resistentes, são importantes para o equilíbrio ecológico da floresta. Não são como nosso eu saudável que sobrevive a muitos períodos sombrios? Esse eu necessário para desenvolvermos equilíbrio em todas as nossas relações?

    Pesquisadores do poder das plantas dizem que elas trazem a lembrança do passado para que conheçamos e compreendamos nosso script criando um novo futuro. Contribui no desbloqueio dos sete chacras, no relaxamento físico e emocional, mobilizando a energia da kundalini e harmonizando as partes instintiva, emocional e mental.

    Creio que realmente a bromélia representa o coroamento da grande jornada de libertação das amarras para a plena expressão do Ser.

    Ao conversarmos e refletirmos sobre duas plantas, a vida pode ser realmente mágica! Ao estarmos acessíveis ao conhecimento que a Sabedoria da Natureza nos oferece, temos a oportunidade de abrir nosso coração e nossa mente a um sentido mais profundo sobre quem somos e sobre o sentido de nossa existência.

    Todas as manifestações da natureza exterior que se apresentam a nós, trazem a compreensão dos nossos limites e potenciais de nossa natureza interior. Caso você tenha afinidades com o cacto e com a bromélia, aproveite para aprofundar a compreensão da magia que aproximou vocês.