Textos

  • Data: 05/04/2012
  • Título: As Estações do Ano
  • Autor(a): Erica Brandt, psicóloga e terapeuta
  • Dionísio

    As quatro estações do ano são frequentemente representadas nas artes por personificações, principalmente por figuras femininas ou por gênios com atributos. A primavera, por exemplo, é revelada pelas guirlandas de flores, um arbusto, cordeiros, cabritos; o verão por um feixe de trigo, uma foice, um dragão cuspindo fogo; o outono por um cacho de uvas, uma lebre, cornucópias de abundância transbordantes de frutos e o inverno, por uma salamandra, um pato selvagem, pelo fogo na lareira, etc.

    Na antiguidade, a primavera era consagrada a Hermes, o mensageiro dos deuses; o verão, a Apolo, o deus solar; o outono, a Dionísio, o deus do vinho: o inverno, a Hefestos, o deus das artes do fogo e dos metais.

    A sucessão das estações, assim como a das fases da lua, marca o ritmo da vida, as etapas de um ciclo de desenvolvimento: nascimento, formação, maturidade, declínio, ciclo que se ajusta tanto aos seres humanos quanto a suas sociedades e civilizações, ilustrando, igualmente, o mito do eterno retorno. Simboliza, portanto a alternância cíclica e os perpétuos reinícios.

    O outono, estação que marca o final do verão e antecede o inverno é denominada “Outono Boreal” no hemisfério norte, iniciando em 20 de setembro. No hemisfério sul denomina-se “Outono Austral” com início em 20 de março. Com exceção das regiões mais próximas do Equador, o calor do verão passa a ser substituído por temperaturas mais amenas, onde ondas de frio anunciam a chegada da estação consagrada ao deus Dionísio (Baco). As folhas tornam-se amareladas e são espalhadas pelo vento nos convidando a rever o que não é mais necessário em nossa vida – crenças, hábitos, vícios, atividades, etc., que não tem mais sentido em nosso estilo de viver.

    Dionísio, o deus jovem, ou o deus nascido duas vezes, tem sido abusivamente interpretado como símbolo do entusiasmo e dos desejos amorosos. Dionísio descende de Zeus e de Sêmele, deusa-mãe de origem frigia ou mortal, filha de Cadmos e da Harmonia. Desejando receber seu amante divino em toda a sua majestade, Sêmele teve a casa incendiada e foi, ela mesma, fulminada.

    Retirado por Zeus do ventre materno, o deus nasciturno acabou sua maturação na coxa do pai. Pode-se reconhecer aí um mito naturista elementar; a Terra-Mãe, fecundada pelo raio do deus do céu, dá à luz um jovem deus, cuja essência se confunde com a vida que surge das entranhas do solo. O duplo nascimento permite, por um lado, salvaguardar o raio que, outrora, simbolizava a união do céu e da terra, e, por outro lado, realçar a situação excepcional do novo deus na descendência de Zeus. Esse duplo nascimento, que quer dizer também dupla gestação, remete ao esquema clássico da iniciação: nascimento, morte e renascimento: a coxa de Júpiter, a maior divindade do Olimpo – oca como a árvore oca, acrescenta então, simbolicamente, aos poderes iniciáticos de Dionísio, a força excepcional que, sempre simbolicamente, reside na coxa do pai dos deuses.

    Dionísio desposa Ariadne, que era originariamente, uma deusa egeia da vegetação, notadamente das árvores. Inúmeros são os temas dionisíacos que representam a aliança do casal divino: a cena simboliza, muitas vezes, a união do deus e do iniciado aos seus mistérios.

    Deus da vegetação, da vinha, do vinho, dos frutos, da renovação sazonal; Senhor da árvore, segundo Plutarco, filósofo e prosador grego do período Greco-romano; ele é aquele que distribui a alegria em profusão, segundo o poeta grego Hesíodo. Gênio da selva e dos jovens brotos, Dionísio é também o princípio e o senhor da fecundidade animal e humana. Considerando as consequências sociais e as formas do seu culto, Dionísio era o deus da libertação, da supressão das proibições e dos tabus, o deus das catarses e da exuberância.

    Por ter tirado do inferno sua mãe, Sêmele, fulminada por Zeus, e por tê-la introduzido na morada dos Imortais, Dionísio era também considerado como um libertador dos Infernos, deus ctoniano, iniciador e condutor das almas. A descida de Dionísio aos infernos, seja em busca de sua mãe, seja para estadas periódicas, simboliza a alternância das estações, do inverno e do verão, da morte e da ressurreição. Encontra-se aí a trama estrutural dos deuses mortos e ressuscitados, comuns às religiões de mistérios, que floresceram no começo de nossa era em todo mundo Greco-romano.

    Antes dele havia dois mundos, o divino e o humano; duas raças, a dos deuses e dos homens. Dionísio tende a introduzir os homens no mundo dos deuses e a transformá-los numa raça divina. No aspecto psicológico, Dionísio simboliza a ruptura das inibições, das repressões, dos recalques. Ele é uma das figuras nietzschianas da vida, oposta à sábia face apolínea, simbolizando as forças obscuras que surgem do inconsciente, as forças da dissolução da personalidade: a regressão para as formas caóticas e primordiais da vida. Percebe-se a ambivalência do símbolo: a libertação dionísica pode ser espiritualizante ou materializante, fator evolutivo ou involutivo da personalidade. Simboliza em profundidade a energia vital tendendo a emergir de toda sujeição e de todo limite.

    Que nesta estação possamos renascer para a vida nutridos pelos mais elevados pensamentos, tornando-nos cada vez mais uma raça divina pelo nosso bem-estar, assim como pelo bem-estar de todos e de tudo que faz parte de nossa existência.

    Imagem:  http://mitobook.blogspot.com.br/2011/04/dionisio-ou-baco-deus-menor.html