Textos

  • Data: 30/06/2011
  • Título: Carta para o Jovem Artista
  • Autor(a): Erica Brandt, psicóloga e terapeuta
  • Observando a pintura de um jovem artista percebi que as tintas e o deslizar do pincel retratava mais que um celeiro iluminado. Enquanto meus olhos percorriam os detalhes preciosos de sua alma retratados em cada pincelada, em cada forma, meu coração foi tocado por um sentimento intenso e, com os olhos marejados pelo que deslumbrava, fui percebendo entre cores e detalhes a profundidade de consciência nela sutilmente revelada.

    Cada pintura é a expressão da alma do artista, assim como cada criação poderá ser de forte transformação e riqueza se, após a materializarmos, permitirmos que a obra nos revele o que de nosso universo interior está aí expresso.

    Recordando sobre as pessoas especiais que compartilham cada período de nossa vida, gostaria que ele soubesse que aqueles que nos tocam com seu coração são como anjos que vem com a tarefa especial de nos auxiliarem na cura e na libertação das ilusões. Ao vivermos esses encontros com a intensidade que lhes faz parte, nossa vida vai se desenvolvendo e enriquecendo, pois somos consciências que se reencontram na grande jornada estelar da existência.

    Quando essas relações findam vivemos uma profunda perda como se nosso coração não se permitisse mais pulsar. Intuo que a partir do findar dessa relação tão cúmplice vivida pelo artista, a dor da morte não o auxiliou a compreender que, em cada relação afetiva, nos reencontramos com uma parte nossa esquecida desse ser multidimensional que somos. Findam-se os vínculos e, ao mesmo tempo, aprendemos mais sobre nós e sobre o amor, esse estado de consciência a ser resgatado e desenvolvido.

    Observando a pintura do celeiro com a luz do fogo em seu interior, sinto que esse quadro veio lhe dizer que sempre há um novo renascer. Tornamo-nos mais conscientes sobre o valor do Agora, o presente precioso de cada amanhecer. Sem ter consciência, a sua alma o inspirou a pintar o lugar onde simbolicamente dizemos que Cristo renasce a cada ano e, nas tintas, os sofrimentos sofridos que não estão curados. Podemos dizer que superamos racionalmente situações, mas quando nosso coração se altera e os olhos ficam marejados ao abordar o tema, é sinal que nosso corpo ainda não esqueceu! Há tristeza que precisa ser liberada para podermos aceitar o que não é compreensível.

    Lá, naquela perda, a sua criança interior, a que fala pela intuição, ficou asfixiada. Ela que se torna presente quando se vivencia o amor em sua profundidade, quando passamos a viver transcendendo nossa “lógica”, resgatando a nossa espontaneidade e a valorização da plenitude da existência.

    Quando vivemos numa postura racional, diria que estamos como em estado de coma, não há vida porque estamos centrados no cérebro. Ao estarmos realmente vivos respiramos, porque nosso coração pulsa e nossos pulmões se oxigenam lembrando-nos que nada permanece. A maior aprendizagem está em desenvolver a capacidade de viver o equilíbrio entre o dar e receber ao vivermos o fluxo do Amor Universal. Essa criança, o seu ser interior, deseja intensamente viver. Ela é a Força da Vida que tem superado os riscos de qualquer experiência de Passagem.

    Esse ser interior continua aguardando que ele assuma seus próprios gestos, interesses, estilo, seguindo seus objetivos sem olhar para fatos, mas seguindo seus desejos e impulsos do coração. Aguarda que sua força se expanda na ação a partir da intuição, em vez de permanecer no controle do não viver. Ele almeja que se fortaleça a confiança em suas habilidades e talentos assumindo a sua individualidade; desenvolvendo uma visão mais espiritual e intuitiva, expressando a alegria interior, a sua sensibilidade e calor humano. Acredita que se intensificará a pequena chama da lamparina que se encontra no celeiro, para que essa luz ilumine sua consciência e o liberte das culpas que ainda o amortecem.

    Onde quer que esse "ser" de amor esteja, do fundo do coração provavelmente deseja que ele desperte para a compreensão de que tudo é transitório e rápido, não havendo te mpo para certos ou errados e, sim, oportunidades para fazer algo que nos engrandeça, que irradie o calor do Amor que eternamente está vivo em nós. Que a lamparina presente no coração de cada artista, poeta e escritor ilumine e aqueça o seu ser.