Textos

  • Data: 30/11/2010
  • Título: A espiritualidade e a mística
  • Autor(a): Erica Brandt, psicóloga e terapeuta
  • espiritualidade

    Existem duas palavras, usadas quase como sinônimos: “Espiritualidade” e “Mística”. Na história, muitas vezes a Espiritualidade significava um caminho mais comum, um método de todo mundo e a mística, era definida como uma experiência extraordinária. Dizer que alguém é místico é insinuar que a pessoa tem visões, experiências de estado alterado de consciência, etc.

    Hoje, parece que a maioria dos grupos e autores usa “Espiritualidade” para se referir ao caminho de busca e aprofundamento da intimidade com o divino. E espiritualidade seria a sistematização teológica e cultural da mística. A mística não tem como ser regrada e analisada, é como o amor. É força afetiva e vai além da razão. A Espiritualidade consegue lidar com este fogo afetivo e liga-lo à realidade da vida e da fé em seu conjunto.

    Michel de Certeau, um dos maiores pensadores da religião no século XX, escreveu: “É mística a pessoa que não consegue parar de avançar e, com a certeza do que lhe falta, sabe de cada lugar e objeto que não é isso e, não consegue contentar-se só com isso. O desejo cria um excesso. A pessoa excede. Quer ir mais longe. Não habita em nenhuma parte. É habitada...”.

    Tanto a Espiritualidade como a mística, são fenômenos universais. Florescem em todas as religiões e caminhos espirituais como experiência de intimidade com o divino. Há muitos séculos, as religiões se cruzam e se descruzam, se influenciam mutuamente e, infelizmente, muitas vezes, têm se guerreado de forma estúpida e anti-espiritual. Em um mundo globalizado como o nosso, a separação entre Oriente e Ocidente é cada vez mais tênue e as diversas tradições se complementam. Em geral, nas tradições espirituais, tanto do Oriente como do Ocidente, existem três níveis de mística.

    A mística do cosmos: onde nos deparamos com as pessoas que encontram o mistério divino, com a união com o transcendente na relação e na comunhão com a natureza. Na antiguidade, se desenvolveu a Astrologia e a adoração dos astros. Hoje, a religião da Wicca recupera os cultos à Lua e a religião céltica, os rituais de adoração da terra e de suas forças ocultas. As religiões negras e indígenas sempre encontram a Deus na comunhão com suas manifestações no rio, na pedra, na água, etc. Assim como o Candomblé, o fiel recebe um Orixá e fica por ele transformado, o objetivo desta linha de mística é energizar o ser humano, ajudar a recuperação da saúde do corpo e da alma na profunda união e as vezes mesmo fusão entre pessoa e pedra, ou rio, ou montanha...

    Das grandes religiões orientais, as que são comumente chamadas com o nome de “hinduismo” são, de fato, tradições diversas como o Brahmanismo, o Vishnuísmo e outras. Eram cultos locais nos quais cada aldeia tinha sua divindade, muito ligada à natureza. Essas tradições muito antigas foram escritas em livros sagrados, os Vedas, que contam guerras de heróis míticos que simbolizam as forças mais profundas do íntimo de cada ser humano. A base comum a muitas destas tradições é o que chamam de “sanatana-dharma”, a ordem eterna. Isso parece significar unificar o ser humano com a ordem inscrita na natureza.

    A mística do eu – da interioridade radical: onde encontramos o número cada vez maior de pessoas que só crêem no divino no próprio eu humano. Aí há duas linhas: a de tradição budista que não mesmo em Deus, nem um Deus pessoal, nem numa energia além do humano. Há pessoas que crêem em uma energia divina diferente do comum, mas a ser desenvolvida no próprio interior humano. A maioria dos grupos espiritualistas atuais e pessoas ligadas a movimentos que entram na designação de nova era fazem parte desta corrente. Dentro desta linha o que seria a Espiritualidade? Conseguir acessar esta dimensão divina que existe dentro da gente e assim fazer aflorar em você a sua parte divina.

    Das tradições mais universais da humanidade, a que mais vive isso é o Budismo, com todas as suas ramificações e inspirações orientais e também ocidentais. No século VI, antes de Cristo, o príncipe Siddarta Guatama começa o movimento budista ao ver o sofrimento dos pobres e meditar sobre a inconsistência da vida, das riquezas e de tudo o que ali era sua vida. Ele se torna monge e inicia sua peregrinação de renúncia à vida mundana e esforço para superar a dor própria e do mundo. Depois de sete anos de vida ascética, ele tem a iluminação, torna-se Buda. Há várias tradições e escolas de Budismo. Para os budistas é fundamental o dharma, a doutrina e a shanga, a comunidade. Mas, na prática, o Budismo não desenvolve um culto a Deus. Toda a espiritualidade é centrada na respiração, no auto-equilíbrio e no método de iluminação interior que cada mestre passa para seus discípulos.

    A mística do absoluto – a busca de quem já está: aqui temos as pessoas que compreendem que este amor divino é tão consistente e nuclear que se constitui como um princípio pessoal ao qual chamam Deus(em indoeuropeu antigo Luz). Todas as religiões que creem em Deus sustentam uma dialética espiritual entre o Deus que existe independente de nós e sua manifestação em nosso interior, entre uma presença já atual e operante e uma manifestação plena desta presença que ainda esperamos.

    Os hindus distinguem a alma individual (atmã) e o absoluto impessoal (Brahman), considerado “causa imanente do universo”. Nos upanixades (Veda), a meta final é a compreensão do igualamento da alma individual (atmã) com Brahman, cuja consecução constitui Moksha, ou liberação da existência empírica e da roda dos renascimentos.

    No judaísmo e Cristianismo, Deus é inefável. A Bíblia diz: !habita em uma luz inacessível!. A Bíblia pouco se refere a Deus em si mesmo. Sempre fala de “Palavra de Deus”, “Anjo do Senhor”, “Glória do Senhor”. Quando fala em uma presença de Deus, o texto hebraico gosta de dizer: “em presença”, como acentuando que nunca atingimos diretamente o mistério.

    A filósofa e mística cristã Simone Weil resume bem: “Deus é mistério e revela-se progressivamente. Quanto mais longe fores no conhecimento de Deus, mais descobrirás que o mistério permanece e se adensa, e maior será o desejo de o conheceres mais ainda. “Se há verdadeiramente desejo, se o objeto do desejo é verdadeiramente a luz, o desejo da luz produz a luz”.

    Nesta perspectiva, a Espiritualidade significa de um lado, a busca do mistério divino e esta busca tem como meta incorporar a pessoa crente à intimidade de Deus.

    No caminho do desenvolvimento espiritual, descobre-se que o importante é ser ”movido pelo Espírito”. Cada pessoa é movida por alguém ou alguma força em sua vida de todos os dias. Ou somos movidos pelo Espírito de Deus que age conforme o plano da salvação ou pelas forças do mundo opostas a Deus, forças muitas vezes interiorizadas no próprio eu. É importante discernir qual a fonte da qual bebemos, de onde tiramos água e força para a vida. Dela virão os frutos que daí se seguirão: frutos da carne (humanidade separada de Deus), ou frutos do Espírito... O Mestre Eckhart ensinava que “cada um de nós tem uma dimensão mística. Esse ser místico é a criança que existe dentro de nós”.

    Imagem:  http://www.sxc.hu/