Textos

  • Data: 5/04/2010
  • Título: O Amor que liberta
  • Autor(a): Erica Brandt, psicóloga e terapeuta
  • Numa linda manhã de domingo, desfrutando do vento frio sobre o rosto ao mesmo tempo em que o sol, com seu calor, acariciava minha pele, sentia o prazer do momento especial de estar em campo aberto, com o coração aberto, ouvindo o que a natureza me desejava sussurrar.

    Contemplando o céu e ouvindo os quero-queros interrompidos pelo som do helicóptero e dos pequenos aviões que cruzavam o céu, percebi o quanto os seres humanos não sabem dirigir suas vidas para realizarem seus mais altos vôos e celebrarem a unidade com a Natureza.

    Creio que no meu mundo interior vive um eterno Fernão Capelo Gaivota buscando sempre um voo mais arrojado, mais alto, vivendo a intensidade de cada ciclo, possibilitando que em cada estágio novas sementes da riqueza interior germinem e se desenvolvam, de forma que o canteiro interior um dia se torne um Paraíso na terra.

    Cuidando do jardim interior aprendemos a diferença entre os sentimentos que nutrem, desabrochando as mais belas flores, exalando os mais exóticos aromas e os sentimentos que desenvolvem ervas daninhas, que sufocam e aniquilam a seiva da vida.

    Ao nos observarmos, começamos a distinguir um sentimento egoísta do sentimento desinteressado; um sentimento que limita e um sentimento que liberta; um sentimento que perturba e um sentimento que harmoniza... Para podermos classificar os sentimentos, precisamos estar vigilantes para que nossa mente inferior não tome o controle de nossa vida deixando-nos embriagados nas sensações, suprimindo a consciência para viver o amor passional.

    O amor inferior, o amor passional, é o amor primitivo e sensual com toda a necessidade de tocar, de saborear, de possuir, de explodir em orgasmo a tensão contida. O amor espiritual é um amor puro, mais elevado, sensível à beleza, à poesia e à música. Este amor preenche a alma ao escutar e olhar.

    Estamos vivendo um momento de elevarmos nossa consciência do amor primitivo, onde o ser humano busca satisfazer unicamente as sensações, para nos elevarmos ao amor espiritual que representa a audácia, a coragem, o desejo de avançar, de explorar, de subir às alturas, de se ultrapassar, de se sacrificar o ego por um Amor Maior. Sob este amor, tudo germina, cresce e vive porque há luz, há discernimento, a vida jorra e circula.

    Sob esta qualidade de amor já não temos amargura, cansaço, ciúme, nem inquietação: só o amor desinteressado não traz qualquer perturbação. Percebo que a questão vital da humanidade, a que todos nos devemos ocupar diante de tanto sofrimento, é como amar e como, através do amor, nos transformarmos na expressão de nossa divindade. Porque o amor é Deus e Deus é amor.

    Quanto menos evoluído é um ser, mais ele cede perante a insistência do seu amor sem analisar se ele é desinteressado, puro ou útil. Desde que ele ame, não tem que refletir porque cada um só pensa em si e procura a sua satisfação, completamente indiferente ao que sucederá com o outro, pois o que importa é saciar a sua sede.

    Nos maiores santuários iniciáticos do passado, ensinava-se nos Mistérios que o amor é a única condição para o verdadeiro aperfeiçoamento, para a verdadeira libertação. Um dos ensinamentos que nos é repassado pelo arquétipo da Samaritana, presente nas mulheres e homens que buscando saciar externamente a sede interior, vivem desconectados com o coração e, em conseqüência, com sua consciência superior.

    É a Samaritana que aprende no encontro com Cristo, em Samaria, sobre como podemos viver o amor que realmente sacia nossa sede interior para vivermos o Amor maior com o outro, desfrutando de todas as alegrias e cumplicidades do encontro. É ela que nos retransmite esse saber orientando-nos a primeiramente resgatar a conexão com a Inteligência sublime que habita nosso coração. Essa energia divina que nos sustenta, que nos deu vida, corpo, saúde, alimento, água, ar, sol, flores, frutos e tantas outras riquezas que nutrem nossos corpos.

    Quando temos um tempo diário para reverenciar esse Amor no nosso coração, de forma que em nossa alma exista primeiro o Esplendor dos esplendores, a Luz das luzes, então podemos escolher alguém que esteja capacitado a nos fazer lembrar dessa Inteligência sublime. Juntos, em cumplicidade, nos tornamos colaboradores no plano físico, porque algo sentimos no outro que nos aproxima da Nascente divina. O outro passa a ser um mensageiro/a que nos fala do Céu. Este amor poderá ser sentido, bebido, saboreado, cheirado, tocado, explorado por todas as sensações, sem posse, fluindo com a sabedoria do coração, nutrindo o corpo, a alma e o espírito, nos levando a vivenciar incessantes estados de plenitude.