Textos

  • Data: 2/04/2010
  • Título: A Brevidade da Vida
  • Autor(a): Erica Brandt, psicóloga e terapeuta
  • Lendo "Sobre a Brevidade da Vida", escrito por Sêneca, tenho me questionado sobre nossa evolução nestes dois mil anos. Convido você a ler o texto abaixo, extraído de um dos capítulos do livro e tire suas próprias conclusões.
    Lúcio Anneo Sêneca(4 a.C? - 65 d.C)

    "Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas a vida é distribuída entre muitos! São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

    Agradar-me-ia questionar qualquer um dentre os mais velhos: Vemos que já atingiste o fim da vida, tens cem ou mais anos. Vamos, faz o cálculo de tua existência. Conta quanto deste tempo foi tirado por um credor, uma amante, pelo poder, por um cliente. Quanto tempo foi tirado pelas brigas conjugais e por aquelas com escravos, pelo dever das idas e vindas pela cidade. Acrescenta, ainda, as doenças causadas por nossas próprias mãos e também todo o tempo desperdiçado. Verás que tens menos anos do que contas.

    Perscruta a tua memória: quando atingiste um objetivo? Quantas vezes o dia transcorreu como planejado? Quando usaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste uma boa aparência, o espírito tranquilo? Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo? Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estavas perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morres cedo. O que está em causa então? Viveste como se fosses viver para sempre, nunca te ocorreu a tua fragilidade. Não de dás conta de quanto tempo transcorreu. Como se fosse pleno e abundante, o desperdiças e, nesse interim, o tempo que dedicas a alguém ou a alguma coisa talvez seja o teu último dia. Temes todas as coisas como mortais, desejas outras tantas tal qual os mortais. Ouvirás a maioria dizendo: Aos cinqüenta anos me dedicarei ao ócio. Aos sessenta, ficarei livre de todos os meus encargos.

    Que certeza tens de que há uma vida tão longa? O que garante que as coisas se darão como dispões? Não te envergonhas de destinar para ti somente resquícios da vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva? Não é tarde demais para começar a viver, quando já é tempo de desistir de fazê-lo? Que tolice dos mortais a de adiar para o quinquagésimo e sexagésimo anos as sábias decisões e, a partir daí, onde poucos chegaram, mostrar desejo de começar a viver!."

    Sêneca adverte contra a intensa correria a que se entrega a maioria das pessoas, reiniciando sem cessar o mesmo movimento vão. Inútil agitação que não conduz senão ao esgotamento das forças físicas e à frustração mental.

    Para viver é necessário desenvolver a consciência para sabermos quem realmente somos, não quem projetamos ser. Observar quais são nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossos sonhos, nossos objetivos e focar no que possa ser realizável. É crescer na nossa responsabilidade com a nossa realização.

    É tempo de cada pessoa ser comprometida com a nossa Voz interior, aquela que nos sinaliza o caminho de nossa plena realização. Quando estamos em harmonia com nossa essência encontramos também a serenidade em nossas relações.