Textos

  • Data: 10/10/2010
  • Título: O viver e o existir em Clarice Lispector
  • Autor(a): Hilda Simôes Lopes
  • Clarice Lispector, a mulher que dizia só ter interesse em escrever, bem criar os filhos e amar o

    gênero humano, ao iniciar sua mais discutida obra (A Paixão Segundo GH) declara: “estou

    tentando dar a alguém o que vivi, e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi”.

    Essa escritora idealista e apaixonada, pouco entendida em sua época e hoje estudada nas melhores

    universidades do Brasil e do exterior, usava imagens e símbolos para expressar o indizível.

    Nenhuma novidade, Cristo já falava em parábolas por saber o limite das palavras. Escritores que

    dizem o essencial são assim, exigem interpretação.

    E Clarice conecta-nos ao fundamental. Ela nos enxerga submersos em finas máscaras superpostas

    que nós mesmos colocamos, ou, por comodidade, permitimos aos outros nos colocarem.

    Semelhantes a cebolas, uma camada sobre a outra, e nelas vivemos enclausurados, desconectados

    de nossa verdade interior, daí a escritora clamar por sermos o que de fato somos: “Respeite a você

    mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você. Não queira

    fazer de você uma pessoa perfeita. Não copie uma pessoa ideal, copie a você mesmo”. Para ela,

    vivemos num mundo de iguais por covardia, afinal é mais fácil deixar-se marionete do que se fazer

    gente verdadeira. E diz que o sentimento condutor de todos nós, seres fossilizados, acomodados em

    padrões não condizentes com nossa essência, é o sentimento de esperança: a cultura da esperança é

    o que arrasta os seres gritantes para fora de um distante mundo possível. Para Clarice, o mundo

    exige-nos iguais para não gritarmos, e, diz, se eu gritasse acordaria milhares de seres gritantes.

    Para ela as pessoas não devem se acomodar em suas “zonas de conforto” cumprindo roteiros não

    oriundos de si mesmas. Anseia por pessoas vivas, inteiras, com coragem de encarar suas sombras

    em busca da harmonia interna soterrada nos padrões sócio-culturais estabelecidos. Chama isso a

    “desoirização” da pessoa, a troca da preocupação em “ser herói” e receber o aplauso do grupo pela

    conduta autêntica centrada na essência do ser.

    “A vida moderna pega forte e sem cuidado você vira um bloco desinformado, inerte, pesado e

    facilmente manipulável.

    Para Clarice Lispector o encontro da pessoa com sua essência é comparável ao alcance da pedra”

    O homem está abandonado, perdeu o contato com a terra, com o céu. Ele não vive mais, ele existe.

    Clarice Lispector, a hermética, a intimista, disse assim há mais de cinquenta anos. E hoje, época de

    homens poderosos em todos os sentidos, para o bem e para o mal, ler essa escritora que se afasta da

    sociedade em crise para a crise do indivíduo, cada vez mais parece água fresca em dia de quarenta

    graus à sombra. A sabedoria de suas palavras é atemporal e agora, meu amigo, ela é necessária

    como usar computador, comer salada e fazer caminhadas. A vida moderna pega forte e sem cuidado

    você vira um bloco desinformado, inerte, pesado e facilmente manipulável.

    Crítica das relações humanas, Clarice as enxerga como o espaço onde acontece o assassinato mais

    profundo: aquele que é um modo de relação..... um modo de nos vermos e nos sermos e nos termos,

    assassinato onde não há vítima nem algoz, mas uma ligação de ferocidade mútua. Pois Clarice não

    enxergava a desumanidade do social e sim a das almas, punha a mão na fome de integridade e não

    na de comida, gritava pela ausência de ser e não pela de saúde e saneamento. Queria mexer na seiva

    e não nos galhos da árvore. Coisa difícil, afinal a “fome” é imensa e tem muitas faces, e

    metaforicamente Clarice explica: a pessoa come a outra de fome, mas eu me alimentei de minha

    própria placenta. E me pergunto se ler sua literatura não é isso mesmo, comer placenta, engolir

    fermento de vida, deixar as bordas e afundar no miolo.

    Clarice Lispector puxava o véu da mediocridade e a deixava exposta em suas crônicas, romances e

    contos. Em Amor, aborda o sufocamento de uma mulher aprisionada nos tradicionais papéis

    femininos, em Defendendo Deus, a revolta, a culpa e o medo frente ao poder e a autoridade de um

    Deus engolido, mal explicado e não digerido, em O Crime do Professor de Matemática, as relações

    de afeto e as cobranças que nos enlameiam de culpas e desmerecimentos, em Feliz Aniversário o

    papel do idoso em famílias cada vez mais ocupadas com ganhos e falta de tempo. Em cada conto

    um estilete, apontando e desnudando.

    No romance A Hora da Estrela, considerada sua obra de despedida, ela escreve sabendo que a

    morte está próxima e põe um pouco de si nos personagens Rodrigo e Macabéa. Ele, um escritor à

    espera da morte; ela, uma solitária. Conta uma história e, ao mesmo tempo, revela ao leitor seu

    processo de criação e sua angústia diante da vida e da morte. Já no célebre A Paixão Segundo GH,

    um grito humano (GH = gênero humano) de porque a gente não é, o nojo pelas máscaras sociais, a

    angústia pelo ser. Para Clarice Lispector o encontro da pessoa com sua essência é comparável ao

    alcance da pedra filosofal.

    Como ela mesma afirmava, sua literatura não é fácil, deve ser mais “sentida” do que lida. Seus

    parágrafos são quebrados, as frases picoteadas, as palavras chicoteiam e geram perplexidade. Mas é

    por essas fendas e estranhezas que você adentra seu texto. Proust elogia os textos herméticos ao

    afirmar que o leitor erra ao pretender respostas quando, ao ler, deve receber desejos; o escritor deve

    instigar o leitor a mergulhar em si, auxiliando-o a soerguer parte do véu da fealdade e da

    insignificância circundantes. 

    Clarice não fala à generalidade das pessoas, mas a cada um, ela usa as palavras para fazer arte e

    não para contar histórias. E arte penetra a gente pelos poros e por onde houver espaço, irrita,

    emociona, põe pra pensar, ou rir, ou chorar. Quebra nossas carapaças (construídas para suportar dias

    cheios de absurdos) e nos põe em contato com o silêncio, a sensibilidade, a chama. A arte iluminanos para nós próprios, desvenda-nos seja para o sofrimento ou para a alegria e, sem dúvida, faz-nos

    mais fortes porque mais senhores de nossas verdades. Para Ferreira Gullar, o artista descobriu que

    as coisas não são apenas o que se vê, o que erradamente se vê, ele sabe como as coisas e as pessoas

    dizem bem mais do que aparentam.

    Clarice Lispector, além de ver além, soube expressar, e nos fazer sentir essa tão sutil quanto pouco

    perceptível realidade que nos habita, nos circunda e nos confunde. Ela queria pessoas vivas e não

    marionetes, ela queria gente vivendo e não apenas existindo. E pedia: Escuta: eu te deixo ser,

    deixa-me ser então.

     

    Contato: hildaslc@terra.com.br