Textos

  • Data: 02/07/2010
  • Título: Do Amor e dos Enamorados
  • Autor(a): Túlio Antônio de Amorim Carvalho, Engenheiro Agr
  • A sociedade contemporânea estabelece no seu calendário

    comemorações especiais, tais como, o dia dos namorados. Essas datas

    apresentam-se em nossa frente, através de grande apelo comercial que se

    estabelece nos meios de comunicação, TV, Rádio, Jornal, Internet, nas

    vitrinas das lojas, painéis, correspondências, folhetos, enfim, invadem todo

    o nosso mundo físico, impregnando o ar que respiramos, nos impelindo a

    ser mais um indivíduo a consumir e a “expressar o seu amor” através de

    um presente, de uma mensagem ou de um encontro. O sistema capitalista,

    através de uma eficiente engrenagem comercial, nos induz a concretizar o

    sentimento a “um ente amado”, por intermédio de um presente. Quanto

    maior e mais caro, maior é o sentimento e a demonstração de amor. Essa

    dicotomia entre o amor e o consumo está bem presente e viva em todos os

    tipos de eventos sociais e comemorações, através da materialização

    financeira do “afeto”.

    Antes de manifestar meu entendimento

    sobre esses temas, faz-se necessário

    explicitar melhor sobre a conjuntura na qual

    se fundamentaram essas teses. Para tanto,

    começo fazendo uma confissão: Levei

    sessenta anos para conseguir entender o

    amor. Só depois que foram arrombadas as

    pesadas portas que impediam o acesso ao

    meu coração e ofuscavam minha visão, é que

    se fez a luz. Com a sinceridade da criança

    Levei sessenta anos

    para conseguir

    entender o amor. Só

    depois que foram

    arrombadas as

    pesadas portas que

    impediam o acesso ao

    meu coração e

    ofuscavam minha

    visão, é que se fez a

    luz.

    que redescobri dentro de mim e a maturidade de um homem que

    completou seis décadas de vida, confesso que só agora vim a entender a

    importância do amor para a nossa vida. É com uma intensa dor no peito

    que percebo quanto tempo perdi na vida por causa de uma cegueira e

    surdez induzidas pelo sistema social no qual nos estruturamos. Felizmente,

    questões conjunturais pessoais, entre elas, dizem, a “Idade da Verdade”,

    me fizeram abrir os olhos, enxergar, ouvir e a escutar. Como num passe de

    mágica, meu coração extravasou sentimentos, meus olhos viraram uma

    cachoeira de lágrimas, que a todo o momento buscam compensar o

    represamento daquele tempo. Confesso, não enxerguei porque não queria

    enxergar. Não escutei, porque não me convinha escutar. Com dor no

    coração e um profundo arrependimento, confesso que só agora eu percebi

    como fui egoísta e insensível com minha esposa, a qual sempre soube me

    dedicar seu amor, seu carinho, seu companheirismo e sua amizade. Não fui

    capaz de entender e retribuir essa declaração de amor. Uma carapaça

    construída pelas concepções sociais, contamidada pela cultura machista,

    impedia que o ser humano que ali se escondia deixasse brotar toda a

    sensibilidade, o carinho e o amor que existia. Esse indivíduo, formatado

    pelo modelo social, onde o homem tem que ser forte, corajoso, inteligente,

    ambicioso, competente e vitorioso, e não pode chorar, sofreu e fez sofrer

    quem o rodeava, lhe dava amor e carinho. Achava que tudo sabia e tudo

    podia, na verdade nunca soube nada e nunca conseguiu realizar nada além

    do que estava “projetado” para fazer. Foi um cético que se machucava,

    machucando aqueles que amava e me amavam. Hoje, ele chora a dor

    dessa verdade.

    Felizmente, ao atingir a dita “idade da

    verdade”, assim como a lagarta rompe do casulo e

    parte para uma nova fase da vida, retirou a

    armadura, libertou sua alma, deixou seus

    sentimentos falarem, perdeu o medo e permitiu

    renascer da profundeza do seu coração toda a sensibilidade, o amor e

    sentimentos que estavam asfixiados dentro da fachada de “Super Homem”

    que recebeu como herança social.

    Permito-me fazer essas manifestações iniciais, pois as considero

    necessárias para melhor entendimento do que é proposto para o debate: O

    Amor como ingrediente mágico para a vida. Dentro dessa premissa,

    passa a ser uma questão fundamental procurar resposta para uma questão

    básica: O que é o amor?

    Essa pergunta produz intensos debates filosóficos, sociológicos,

    teológicos e na área da psicologia. Para um Engenheiro Agrônomo, servidor

    público que dedicou 37 anos de sua vida profissional, na busca da

    qualidade de vida e do bem estar social, com certeza é muito complicado e

    difícil essa abordagem. Com certeza esse profissional não é o mais

    qualificado e indicado para elaborar teses e qualificar essa questão em

    pauta. Mas, por outro lado, o homem que começou a abrir seu peito e a

    escancarar os seus sentimentos, se candidata, sim, a enfrentar e a

    instrumentalizar essa análise. O “currículo de vida” desse indivíduo contém

    uma bagagem excepcional de “descobertas” que o habilitam para tal tarefa,

    entre elas, da maneira mais dolorosa possível, o quanto foi egoísta em

    nunca perguntar para sua esposa se ela era feliz. Tão importante quanto o

    que foi apresentado até agora do currículo desse “ser humano” é o fato

    dele ter conseguido renascer da dor e do sofrimento através da descoberta

    do amor, e, com coragem, abrir seu coração.

    Dito isso, para iniciar a abordagem do tema amor, é necessário deixar

    claro que isso não vai ser feito através de conceituações acadêmicas, mas

    sim trabalhar o entendimento empírico, oriundo do coração, o que não

    poderia ser diferente. Começo afirmando convicção de que Amar é muito

    mais que um simples sentimento; Amar é principalmente ter

    atitudes. Vamos lá, vou tentar explicar essa afirmação com alguns

    exemplos clássicos do dia a dia. É muito simples e fácil uma pessoa

    manifestar seu amor (ou sentimento!) por alguém ou por algo. Ouvimos

    com muita frequência as pessoas dizerem: “Eu amo aquela roupa! Eu amo

    ir à praia! Eu amo aquele artista! Eu amo aquela pessoa”. Para alguns,

    também não é difícil dizer “Eu te amo”. Necessariamente, essas

    manifestações não têm muita relação com o amor. Essas declarações estão

    fortemente contaminadas com o modelo de comportamento social, onde se

    consome até “sentimentos” difusos, carregados de modelos

    preestabelecidos, complexos nos seus objetivos ocultos e de difícil

    compreensão. Voltamos, então, à questão que, estruturalmente, é

    fundamental para o entendimento do amor, a atitude. É necessário

    destacar, também, um parâmetro importante: “Amor que ama para valer,

    ama porque ama, nunca espera nada em troca; eis a razão de sua

    força!”(Ricardo Sá - Canção Nova). Essa é uma atitude esperada de quem

    ama, pois não é na busca de uma recompensa, de uma compensação. O

    amor verdadeiro não se dissipa na dificuldade; não desiste facilmente e

    nem é interesseiro e oportunista. Essa “verdade” me transpareceu em um

    momento em que estava fragilizado, impotente para entender minha

    existência, com uma enorme tristeza no coração pela percepção do que

    tinha transformado minha vida. Olhava para trás e não via nada que

    valesse a pena ver. Nem pegadas enxergava. Possivelmente a “maré” do

    tempo apagou tudo! Nesse momento precioso, uma mensagem da minha

    esposa fez a diferença. Dizia assim: “Te amo muito, amo porque amo,

    porque sempre foste tu o amor da minha vida! Um beijo daquela que te

    ama e sempre te amou na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na

    riqueza e na pobreza (espiritual e material), gratuita e

    desinteressadamente, com o coração cheio de medo e tristeza ou bem leve

    e feliz!” Essa é uma atitude de amor. Esse é o embasamento da minha tese

    que, no amor, o mais importante são as atitudes. Coisas simples, tão

    simples que parecem insignificantes, mas não são, tais como passear de

    mãos dadas, olhar as flores desabrochando no jardim, curtir o beija-flor

    faceiro voando de flor em flor, fazer um agrado, um carinho, uma refeição

    gostosa, conversar sobre banalidades, dizer o que sente; entender o que

    não foi dito; perceber quando a pessoa amada está triste; ter sensibilidade

    nos momentos difíceis; se interessar e perguntar: Como vais? Do que tu

    gostas mais? Por que estás triste? Tu és feliz? Isso, na minha nova visão, é

    atitude de quem ama.

    Poderíamos ficar descrevendo inúmeras formas de atitudes que se

    constituem na manifestação do amor. Cada indivíduo tem no seu modo de

    demonstrar, toda uma história e modelos de vida que herdou. As mulheres,

    mais sensíveis e receptivas, são mais competentes em ter atitudes no

    amor. Já os homens, mais “racionais” têm mais dificuldade de liberar sua

    sensibilidade, seu carinho, de manifestar seu amor. Mas, com certeza, o

    que faz a diferença são as atitudes, que, por mais simples e singelas

    pareçam, são formas contundentes de manifestação do amor. Com certeza,

    alguns companheiros de gênero, ficarão atônitos e incrédulos com minha

    tese, porém, as parceiras do gênero feminino entenderão perfeitamente

    minhas premissas.

    Outro ponto apresentado ao início desta “dissertação” é o Amor como

    ingrediente mágico para a vida. Ora, vejamos, é possível imaginar a

    vida sem o amor? Pois, infelizmente, ainda existe quem ache que sim!

    Acredito que seja apenas a negação da sua existência por mera cegueira.

    Eu que diga! Mas, com certeza o amor é aquele ingrediente que faz a

    diferença na vida. Vou citar William Shakespeare para exemplificar:

    "Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de

    harmonia." Não pode haver inteligência e saúde espiritual em quem não

    ama. É no amor que conseguimos amadurecer, de tomar forma, de nos

    encontrarmos. Assim, o entendimento sobre a vida, sobre o mundo, é

    diferente para aqueles que os olham com a visão do amor. Trago outra

    citação que traduz esse entendimento: "Na raiz de quase todas as misérias

    materiais e, sobretudo, morais, está uma falta de amor, uma fome de

    afeição que não foi satisfeita." (Georges Arnold). Os estudiosos das áreas

    humanas entendem que o mundo se encaminha para uma quarta

    revolução, onde as expectativas e as esperanças são que o amor será

    capaz de criar uma nova sociedade mais humana e solidária.

    Por fim, para entendermos a premissa de que o Dia dos Namorados

    é uma importante comemoração, temos que concordar com uma

    concepção: estar enamorado é estar encantado, apaixonado, cheio de

    amor. A partir disso, podemos concluir que os casais que se amam são

    eternos namorados e, assim sendo, é uma data na qual tem que ser

    “ressuscitado” todo o encantamento, toda a paixão e todo o amor. Dessa

    forma, essa comemoração é importante para renovar as emoções, os

    sentimentos e afirmar seu amor ao parceiro. Isso não necessariamente

    deve ser feito na materialização de presentes deslumbrantes e

    maravilhosos, mas, com certeza, em atitudes, que, por simples e

    verdadeiras poderão demonstrar o seu amor. Convoco a todos os

    enamorados a abrirem seus corações e, através de muita atitude, dar

     

    provas de seu imenso amor.