Clique aqui se você não consegue visualizar esta newsletter

Primavera – tempo de florescer o “bem-querer”
Por Erica Brandt, psicóloga e terapeuta

Um dos mais belos livros para desenvolver nossa consciência é o “Livro da Natureza” que revela em cada elemento uma forma, um conteúdo e um sentido. Infelizmente dedicamos pouco tempo no contato com esse grande livro do Universo e muitos ainda não sabem que ele é o grande reservatório cósmico. O contato com a Natureza nos sensibiliza na conexão com um Amor maior que desperta e floresce em nosso ser as flores do “bem-querer”.

Na caminhada evolutiva do ser humano, ainda nos deparamos com atos que refletem total desumanidade no uso dos recursos que a natureza nos disponibiliza. O foco está unicamente em atender aos próprios desejos de consumir numa desenfreada gula.

As conseqüências dessas atitudes são imensas! Não há trégua, a cada dia novas informações são divulgadas sobre a contaminação dos rios, desmatamentos irregulares, derramamentos de óleo nos oceanos, as queimadas, as poluições e tantas outras ações que desequilibram os ecossistemas, dizimam a biodiversidade, pondo em risco a nossa própria vida neste planeta.

Não podemos mais estar alienados da conseqüência de nossos atos, desde o jogar lixo na rua, toco de cigarro aceso na beira da estrada até, por exemplo, o infringir normas de segurança na exploração do petróleo como presenciamos recentemente no Golfo. Atitudes que revelam uma visão totalmente individualista onde a satisfação pessoal vale qualquer preço. Isso é ser humano? Isso traduz inteligência?

Nos últimos trinta anos presenciamos um tremendo avanço tecnológico e ao mesmo tempo, muitas atitudes insanas ameaçando o sistema-vida. Por outro lado, gradativamente, como uma floresta a renascer silenciosa, pessoas tem despertado para um novo jeito de viver onde a ética do cuidado, a solidariedade, compaixão e co-responsabilidade coletiva passam a ser os valores vigentes. Ao decidirmos não ser mais uma ameaça ao outro e à natureza, permanecendo abertos ao significado profundo de cada momento, somos tocados por uma qualidade de ser que eleva nosso espírito e vivenciamos a Unidade.

Precisamos começar a florescer as flores do bem-querer em todas as áreas de nossa vida para não estarmos mais diante da paisagem, mas inseridos nela. Isso requer uma reeducação do ser humano possibilitando o desenvolvimento de valores que foram menosprezados no último século com o surgimento da indústria, e um dos caminhos é a proposta do Ócio Criativo desenvolvida pelo sociólogo Domenico De Masi, pedagogia que prima mais pelo criativo do que pelo ocioso integrando a criança interior com o adulto e a consciência valorativa.

Domenico ressalta em sua obra que “... a plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, se acumulam, se exaltam e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo; isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo. (…) É o que eu chamo de “ócio criativo”, uma situação que, segundo eu [penso], se tornará cada vez mais difundida no futuro.” Domenico de Masi, “O Ócio Criativo”, pg. 148, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2000.

O especialista segue o raciocínio de que nesse período pós-guerra o homem quer falar de felicidade e de valores fundamentais como emotividade e criatividade. “Esses valores foram considerados secundários pela sociedade industrial, que privilegiava a racionalidade, o coletivo, a prática. Assim, os homens deixaram esses valores de lado – e as mulheres os cultivaram”, diz o sociólogo em depoimento à Revista Marie Claire em 2000. Embora ao homem tenha sido dito para não chorar, para serem mais frios e inflexíveis, a modernidade caminha para uma sociedade andrógina, na qual valores femininos e masculinos se equivalem. A emotividade, a vivacidade, o cuidado com o corpo, a sensualidade, a subjetividade devem ser adquiridos também pelo masculino, dirigindo uma coletividade com valores unissex.

A estética do belo, nos objetos e ambientes que circundam a vida das pessoas já é compreendida pela sociedade. De Masi diz que ela é um dos elementos básicos para uma vida feliz. Ações de preservação e ataque ao meio ambiente influem diretamente nessa visão que, quando desenvolvidas na consciência do cidadão, colocam toda a humanidade em um nível social e coletivo superior.

A estética, disse Domenico à jornalista Flavia Wasserman Dias em documentário produzido em agosto de 2010, é elemento fundamental na formação. Ensinar e formar através do cinema, da música, da arte e da literatura numa pedagogia que centra no viver o agora com um olhar pelo bem-comum. Na entrevista, que explorou a criatividade damasiana em tempo livre, fica evidente a importância da estética como estímulo aos bons comportamentos e uso de símbolos que transformam a música, a arte e o bem social em resultados que o mundo busca. Outros cinco valores fundamentais para uma humanidade consciente são observados: introspecção, amizade, amor, brincadeira e convivência. Todas elas, objetivando a própria felicidade e a dos outros.

E então, vamos germinar e florescer no jardim da humanidade esses valores? Tenho certeza que a Terra agradecerá e nos revelará isso com águas puras e cristalinas, ar puro e saudável com encantador aroma de flores, solo fértil com belas colheitas, canto dos mais distintos pássaros e tantas outras belezas... Porque o sol nasce em todos os dias independente do caos noturno.

Convido você a assistir as entrevistas com Domenico De Masi realizadas pela jornalista Flávia W. Dias.

www.videolog.tv/flaviawass

www.ericabrandt.net

Participe enviando críticas e sugestões de pauta para news@ericabrandt.net
Jornalista responsável: Aline Wolff da Fontoura (MTB/RS 12.406)